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Histórias de um Cérebro Inquieto
Roberto Lent
Da Editora Instituto de Ciência Hoje - ICH, essa obra é de 2024, com 163 páginas e, como explicita o próprio livro, não se trata de um livro de filosofia.
Em 35 capítulos, divididos em 7 partes, o autor utiliza-se de sua história de vida para falar sobre a ciência de maneira envolvente. Cada vivência representa um, dois ou até três temas científicos.
O autor prende o leitor e cada capítulo é uma descoberta. Como afirmou Renato Janine Ribeiro, são dois livros em um.
Apresentação
Esse é um livro que presou não só pelo conteúdo científico apresentado de uma forma muito simples e envolvente, mas que nos presenteou com histórias da vida de Roberto Lent. E isso foi feito com divisões marcadas de forma visual. As vivências e a ciência estão diferenciadas por cores: em azul, o leitor encontrará uma parte da história de Lent e, nas páginas claras, temas científicos são abordados. E, como o próprio autor sugere, há três formas de leitura: só as páginas azuis, somente as páginas claras ou, a sequência em que o livro foi escrito. Fiz as três formas de leitura e, garanto, são três leituras diferentes.
Escrever este livro, e o modo como o fiz, me produziu uma torrente de saudades, algumas boas, outras sofridas [O cérebro que sente saudade]. Tentei vencer a (des)memória sobrecarregada típica da longevidade, ajudado por fotos pessoais, cartas e mensagens que recebi em vários momentos da vida... (p.15)
O cérebro que sente saudade
É dessa forma que a história contada por Roberto Lent se entrelaça com a ciência: no meio de suas lembranças, surge(m) o(s) título(s) que serão abordados mais à frente (título do capítulo, em negrito e entre chaves). E foi essa terceira forma de ler que mais me deslumbrou, pois o autor nos presenteia com sua experiência de vida e depois prende a nossa curiosidade sobre quais descobertas (ou dúvidas) científicas serão mostradas mais adiante. Não sei se vocês perceberam, mas o título dos capítulos é uma curiosidade à parte.
Um trabalho recente de revisão da literatura científica a respeito foi publicado por um grupo de psicólogos chineses, ingleses e japoneses: a neurociência da saudade. O grupo priorizou a modalidade positiva da saudade: aquele sentimento agradável de bem-estar que temos ao lembrar de momentos do passado... (p. 16)
As principais ideias do livro serão mostradas a seguir:
1. Temáticas e Vivências
Roberto Lent divide o livro em sete temas que apresentam momentos diversos de sua vida, mas que sempre se relacionam de alguma forma com pesquisas científicas realizadas ou não pelo autor. Conhecer suas histórias, contadas por ele mesmo, é sempre muito interessante, pois Lent mostra, como ele mesmo fala, um saudosismo em muitos trechos que nos leva também a sentir essa saudade.
Em Infâncias, Adoleceres e Juvenialidades, Lent mistura lembranças duvidosas (como ele mesmo fala) do seu nascimento, dos seus choros intermináveis, fala com imenso carinho da sua babá Iná, do colo da sua mãe paraguaia que lhe recitava, rosto no rosto, "entre beijos, um versinho cantado em guarani" (p. 24).
Ele lembra das histórias (lidas ou inventadas) que seu pai de origem polonesa lhe contava. Livros de histórias que evoluíram para pesquisas nas enciclopédias (era um tesouro tê-las em casa, não é mesmo?). O autor também nos conta sobre mudanças de endereço no Rio de Janeiro, seus passeios acompanhando o pai ao Laboratório Oswaldo Cruz (que privilégio!), suas aulas de acordeão que o fizeram apaixonar-se pela música. Falou da importância que foi aprender várias línguas e sobre seus estudos no Colégio Pedro II e sua entrada na Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha. Lent finaliza Juvenialidades nos contando sobre seu primeiro amor, sobre como a política entrou na sua vida, sobre a ditadura militar, sua prisão política e sobre o AI No. 5.
Já em Paternices, (I)Maturidades, Reta Final e Horizonte, o autor começa falando sobre sua saída da prisão, depois a sua ida para os EUA e sua volta para o Brasil, fala sobre momentos com seus filhos e seus trabalhos na UFRJ, sobre o conservadorismo pedagógico e finaliza com o tema envelhecer.
Em cada tema há uma imagem que se relaciona com os textos apresentados. Essas imagens, assim como a capa, foram criadas por Mitti Mendonça (@mao.negra), artista têxtil, designer gráfico e ilustradora.




2. O Cérebro
Claro que o cérebro não poderia deixar de ser destaque em um livro que tem como subtítulo Histórias de um Cérebro Inquieto. E como já mencionado, Roberto Lent aborda esse tema com muita leveza e com vasto conhecimento em neurociências. Esse importante órgão é explorado em pesquisas que são apresentadas em vários estágios da nossa vida, desde bebês [O cérebro conectado dos fetos ou Bebês aprendizes], passando pela adolescência [Neurônios adolescentes ou Dormir no ponto] até o envelhecer [As células que comem memórias ou Reversão da morte].
Ao pensarmos em cérebro a primeira ligação que fazemos é com a aprendizagem, com o ambiente escolar [Aprendendo a prazo]. Roberto Lent começa o capítulo [Alfabetização recalibrada] com uma frase que daremos destaque:
"A educação depende da ciência do mesmo modo que a saúde" (p. 44)
Infelizmente, ainda estamos longe de o poder público colocar isso como prioridade (como veremos mais adiante).
O cérebro não faz nada sozinho, quanto mais áreas do cérebro forem estimuladas, melhor será a prendizagem e Lent reforça, apresentando várias pesquisas, em que relaciona o aprender com a música [O poder da música e Emoções musicais], em que alerta os pais sobre o prejuízo no desempenho cognitivo que é resultado da privação crônica do sono [Dormir no ponto] e os estimula a [Ler com as crianças]; faz ainda a relação do quanto é importante nossos estudantes estarem motivados, felizes para poderem aprender [O cérebro ouve emoções] e claro, enfatiza a estimulação em artes [Percepção e arte em poucas linhas].
Somos seres naturalmente sociais, mas o autor questiona: será que [Generosidade e autruísmo estão nos genes?], qual será [O poder do afago social] e dos abraços [Abraçaço] para nos adaptarmos a determinados ambientes? Ao mesmo tempo, autor se pergunta: será que precisamos estar juntos para sermos criativos [A criatividade é híbrida]; e até quanto o que é novo nos estimula [Tudo que é novo é incerto]?
Entretanto o cérebro não é só aprendizado, evolução; nós perdemos neurônios ao logo da vida, ficamos mais esquecidos e, consequentemente, nossa inteligência diminui [As células comem memórias, O declínio da inlefigência, O banco de reserva do cérebro]. A morte é um certeza em nossa vida e é um dos temas que ainda intrigam a humanidade e Lent finaliza seu livro com [Os genes que resistem à morte] nos supreendendo com uma pesquisa que fala sobre os genes-zumbis.
3. A Educação e a Pesquisa
A ciéncia é viva e o que temos de certeza hoje pode estar errado amanhã; só que para manter essa vida é necessário o estímulo à ciência com financiamento que no Brasil, alerta Lent, é cada vez menor. As pesquisas apresentadas pelo autor aquecem o coração de quem ama a ciência. Vão desde a importância do "manhês", aquela linguagem típica que usamos com os bebês, com uma entonação mais aguda; até a incrível possibilidade de se implantar uma memória de um fato que nunca existiu "estimulando molercularmente os neurônios da memória" (p. 131)! São trinta e seis pesquisas nos mais diversos universos que nos surpreendem. Destacaremos algumas a seguir.
Pesquisadores do Instituto de Cérebro da Sorbone formularam e comprovaram a hipótese (com base no truque de Thomas Edson) de que a transição
da vigília para o sono é que coloca
o cérebro em "modo criativo". Eureca!
[Mais inova quem cai no sono]
Um grupo de pesquisadores holandeses realizaram um estudo longitudinal, randomizado e cego e comprovaram que crianças que aprendem música brilham em tarefas executivas. "Faz sentido limitar o financiamento das humanidades nas universidades?" (p. 61)
[O poder da música]
Será que podemos reverter a morte? Foi essa pergunta feita por um grupo de pesquisadores americanos e suiços e eles comprovaram que conseguem "ressuscitar da morte" pelo menos uma parte mais simples do sistema nervoso.
[Reversão da morte]
Pesquisadores do Instituto Max Planck, na Alemanha descobriram que o gene ROBO1 é altamente preditor de um bom desenvolvimento de matemática. Portanto, a genética influi em nossas competências cognitivas.
[A genética da matemática]
Passando para a educação, Lent nos fala sobre um dos grandes desafios escolares que é, com certeza, a alfabetização. Em [Alfabetização recabilibrada], o autor nos apresenta uma pesquisa holandesa em que as crianças recebiam duas palavras - aba e ada - que não tinham nenhum significado no holandês - e precisavam relacionar o som que ouviam (que estava levemente alterado) às palavras escritas. Esse exercício ativava as áreas do córtex cerebral da visão e da decodificação da fala. "A ciência ajuda a calibrar e recalibrar a alfabetização" (p. 45). Por que será que muitos ainda duvidam disso?
O grande desafio da educação é o de prover múltiplas oportunidades
a todos os alunos para que possam descobrir e desenvolver
habilidades mas bem aquinhoadas pela sua biologia.
Mas, como o próprio autor fala, nossa escola ainda é muito conservadora. E, em vários capítulos ele reafirma que as intervenções pedagógicas [Ferramentas para a educação] são mais eficazes quando baseadas em evidências científicas.
Algumas intervenções obtiveram notas altas de eficácia no desempenho dos alunos, com baixo custo e evidências científicas numerosas. É o caso de ensinar o aluno a compreender a si próprio (metacognição) e regular seu comportamento (autorregulação). Também funciona bem estimular as interações verbais entre alunos e fomentar o engajamento dos pais na aprendizagem dos filhos. Sabe as piores? Organizar as crianças em classe por nível de desempenho (...) Já é tempo de superar as propostas intuitivas e "mágicas" para educar nossas crianças e passar a utilizar intervenções pedagógicas e políticas educacionais baseadas na ciência. Ciência melhora a educação.

4. Memória e Emoções
...quando estamos tentando aprender alguma coisa, as informações
vão adentrando no cérebro pelos sentidos ou mesmo por meio de nossos próprios pensamentos. Ficam um tempo curto em regiões cerebrais que utilizam
essas informações para raciocinar e elaborar as ideias: é a chamada
"memória operacional". Para permanecer armazenada, é preciso consolidar
em outros setores do córtex cerebral aquilo que aprendemos provisoriamente (...).
Se conseguirmos isso, pronto, aprendemos!
Raciocinar sobre as informações adquiridas ajuda. Dormir também.
Em [Histórias bem contadas], Lent mostra uma pesquisa que comprovou que, a contação de histórias que um adulto faz com que as crianças, é um bom marcador para a aprendizagem de novas palavras. Seus cérebros (das crianças) ficam muito mais mobilizados na área da imaginação e da compreensão narrativa. Muito mais, inclusive, do que com histórias contadas por desenho animado [Ler com as crianças].
Outro ponto muito interessante foi o resultado de uma pesquisa translacional de um grupo alemão [Aprendendo a prazo] que detalhou que o melhor espaçamento da aprendizagem é de oito-doze horas. Até vinte e quatro horas ainda tem uma boa retenção de conteúdo na memória. Portanto, espaçar a aprendizagem em prestações mostrou-se mais eficaz. "E se for possível dormir no meio, melhor ainda" (p. 71).
Você sabia que [O cérebro ouve emoções]?
A percepções das emoções básicas veiculadas pelos som
tem relevância biológica para os animais, e adquire uma dimensão
psicológica e social nos seres humanos. (...) Como será que o cérebro
é capaz de processar essa habilidade?
Outro ponto extremamente importante é a educação socioemocional das nossas crianças. Uma pesquisa de um grupo da China comprovou a importância de cérebros cooperativos que "apresentavam alta sincronia de atividade cerebral, ao contrário das duplas independentes. Cérebros cooperativos, córtex pré-frontal vibrando em sintonia" (p. 145). Trabalhar em grupo, terá como consequência uma geração socialmente mais pacífica, compreensiva e cooperativa.
Em [O poder do afago social], pesquisadores identificaram por onde a amígadala do camundongo (que é a região do cérebro que identifica a valência emocional dos estímulos externos) conduzia a informação sobre o sofrimento do camundongo estressado que fazia com que o primeiro tivesse um comportamento para confortar o segundo. O estímulo da amígdala medial se interligavam com a região bem na base do cérebro - o hipotálamo.

Conclusão
Essa imagem define bem o sentimento ao finalizar esse livro: algumas peças se encaixaram e completaram o que já havia aprendido, mas muitos outros conhecimentos surgiram e instigam que mais livros seja lidos, mais conhecimentos sejam adquiridos e muito mais pesquisas sejam feitas por mim.
Como já deve ter ficado claro durante esta resenha, finalizo a leitura encantada! Principalmente por ver um educador que valoriza a pesquisa e que estimula outros educadores a levarem para a sua sala de aula propostas e atividades pedagógicas baseadas na ciência.
Meu sonho é ver a ciência ser valorizada por educadores e pelas políticas públicas. E livros como Existo, Logo Penso é com certeza uma Literatura de Divulgação Científica que deveria ser uma leitura obrigatória para todo educador.
Pensando melhor, seu público não são só educadores. É uma leitura para pesquisadores, para estudantes e para qualquer pessoa que deseje conhecer um pouco sobre neurociências e sobre como esse cérebro inquieto funciona.
Contato
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